Não posso escrever sobre toda a América Latina, mas
conheço meu país. As pessoas confundem diferenças com inferioridade. Somos,
naturalmente, muito diferentes da América do Norte, Europa ou Ásia, mas isto não quer
dizer que não se pode ter idéias boas, bons produtos e
criatividade por aqui. O motivo da diferença está
em vários fatores:
1o. Somos muito mais jovens ( fomos descobertos há apenas
500 anos e nos tornamos uma república há apenas cem anos!) . Há quantos anos a Europa
existe? A China já existia como um império há mais de 2000 anos! Tiveram tempo o
bastante para aprender.
2o fator: Fomos
colonizados por degredados, isto é, a escória portuguesa de patifes, assassinos e
ladrões, que era enviada para cá. Para assegurar nossa dependência como colônia era
PROIBIDO a construção de escolas. Até o século passado não podíamos ter escolas,
universidades ou comércio com nenhum país, exceto Portugal e suas colônias.Praticamente
todos os colégios do país surgiram no século XX. Apesar disto, há quarenta anos
atrás, ainda não tínhamos alunos
suficientes nas Universidades para preencher uma turma , pois a maioria dos nativos era
analfabeta e as universidades eram somente para a elite. Ainda hoje não há muitos brasileiros capazes de falar outras
línguas, como acontece na Europa. Os USA, colonizados por peregrinos do Mayflower,
exilados políticos ou religiosos que protestavam contra a igreja, fizeram sua
independência e se tornaram república há
cerca de 200 anos. Bem diferente de nós, tinham educação e conhecimentos que os nossos
pobres degredados não tinham. Desde então, tanto o Brasil como o restante da América
Latina, passaram a sofrer as conseqüências de inúmeras ditaduras militares, que
destruíram o pouco que conseguiam em termos de desenvolvimento e educação. Burocracia,
centralização ditatorial e o descaso com a saúde e educação do povo conduziram estes
países ao subdesenvolvimento.
Quanto a corrupção, esta existe em todos os países do
mundo, inclusive nos USA e na Europa. A diferença é que nestes lugares há justiça e
punição, o que ainda não conseguimos aqui. Direitos trabalhistas, programas de controle
da política econômica, com auditorias nas finanças e investigação dos parlamenteres
suspeitos e educação para todos, tudo isto
ainda não foi alcançado. Ainda há bem vivos Pinochet, Fidel Castro, Fugimoro e
inúmeros outros torturadores pela América
do Sul e Central. Como resultado disto tudo, nossos "gerentes" ainda são
ditadores ou paternalistas obtusos, mas é claro que há exceções. Temos muita
criatividade, vide o nosso Carnaval, capacidade de improviso, de união e solidariedade.
Acho que teremos muito tempo pela frente para aprender a
lidar com nossos problemas, pois ainda estamos engatinhando na direção do
desenvolvimento. A Europa já passou por isto que estamos passando há centenas de anos
atrás. Guetos e favelas existiam em Londres antes da revolução industrial e, na
França, as cabeças foram cortadas e a era do terror foi implantada, após a tomada da
Bastilha. Temos avanços tecnológicos incríveis como o setor de Engenharia da UFRJ, a
Universidade de Campinas, e muitos outros. Fazemos transplantes de coração e
desenvolvemos técnicas cirúrgicas muito superiores às européias. Temos leis
maravilhosas e modernas, ao lado de outras incrivelmente injustas ou ultrapassadas.
Avanços tecnológicos, mas políticas educacionais retrógradas e desumanas. Somos um
país de contrastes. Povo gentil e hospitaleiro, mas violento e capaz de roubar e ferir,
desde pequeninos.
Albertina A. Werneck, Niteroi
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